Yuri Moreira
O Imbróglio dos condomínios e loteamentos em Gandu
A história dos condomínios em Gandu é marcada por grandes expectativas que, ao longo do tempo, esbarram na burocracia e em imprevistos. Tudo começou lá na década de 1980, com o Parque Ladeira Grande, lançado pela empresa M. Libânio. A ideia inicial era criar um condomínio fechado de alto padrão e, no papel do cartório, ele continua registrado assim até hoje. Mas a transformação em condomínio acabou não saindo como o planejado e a saída repentina da pessoa que liderava o projeto complicou ainda mais a situação. O resultado é o que vemos hoje: as ruas foram abertas e as casas construídas são bonitas e de alto nível, mas o local virou um bairro aberto, sem portaria ou cancelas.
Anos depois, no começo dos anos 2010, tentaram fazer algo parecido perto do bairro 2 de Julho. A proposta era criar um espaço organizado e reservado bem perto do centro da cidade, mas a ideia não engrenou e quase ninguém construiu por lá. Em seguida, veio o Loteamento Brasil Itália, ao lado do CETEP Baixo Sul. Esse vendeu rápido, mas enfrentou um problema prático: a falta de fiscalização e medição na hora de delimitar os terrenos. Um vizinho pegava um pedaço do lote do outro, às vezes sem querer e outras vezes de propósito, gerando um efeito dominó. No fim da rua, o último comprador acabava descobrindo que o seu terreno tinha ficado menor do que o que estava no papel.
A Burocracia dos Papéis e a Cautela do Morador
Mais recentemente, o projeto do Verde Vale Residence surgiu com a promessa de ser, finalmente, o primeiro condomínio fechado de verdade em Gandu. Localizado perto da BR-101, atrás da Coolerg, em um terreno inclinado, o empreendimento vendeu quase todos os lotes rapidamente, impulsionado pela boa reputação e credibilidade do seu idealizador. Quem passa no local vê a área toda murada, cercada e com um portal de entrada bonito. Parece tudo pronto, mas ao olhar do lado de dentro, não existe nenhuma casa construída até hoje.
Com exceção do Ladeira Grande, que ficou no passado, todos esses empreendimentos enfrentam a mesma dor de cabeça: os travamentos de documentação. As barreiras acontecem por exigências ambientais de órgãos como Inema ou Ibama, devido à presença de nascentes e áreas de preservação, pela demora do cartório no desmembramento da área geral em lotes individuais ou por outros problemas na Justiça. Ações por disputas de posse, processos questionando a legalidade da obra, embargos judiciais ou pendências em inventários da terra são suficientes para congelar um projeto por anos e travar qualquer avanço. Essa insegurança prejudicou tanto quem comprou para construir quanto quem investiu dinheiro esperando retorno, levando muitos compradores a suspender os pagamentos até que a papelada saia de vez.
Em Gandu, a verdade é que problema de documentação é igual a mato: tem em todo canto. Todo mundo na cidade sabe que boa parte dos imóveis sequer possui escritura pública. A realidade local sempre foi tocada na base da confiança, na maioria das vezes com contratos de compra e venda simples ou o famoso "contrato de gaveta". Por muito tempo, isso foi visto como algo normal, mas quando essa informalidade esbarrou na fiscalização, nas exigências da lei e nas ações na Justiça, a conta chegou pesada para o bolso de quem compra.
Por outro lado, é preciso destacar o empenho e o esforço incansável dos responsáveis por empreendimentos como o Verde Vale e o Brasil Itália para resolver essa situação. Longe de cruzarem os braços, os donos desses loteamentos têm suado a camisa, investindo tempo, recursos e contratando equipes jurídicas e ambientais para desembaraçar todo o processo. Há um compromisso real de honrar o que foi vendido e entregar a documentação 100% em dia aos clientes. No entanto, eles esbarram em uma máquina burocrática pesada: como a liberação definitiva não depende apenas da boa vontade e do esforço deles, mas sim do ritmo lento dos cartórios, aprovações de órgãos ambientais e despachos da Justiça, o processo, infelizmente, costuma se arrastar.
Toda essa trajetória, com seus altos e baixos, ajudou o morador de Gandu a amadurecer a sua visão. A população hoje está mais pensativa, mais cautelosa e muito mais atenta na hora de planejar a aquisição de um terreno. A euforia inicial do lançamento deu lugar ao entendimento claro de que o verdadeiro sonho do imóvel próprio não se resume apenas a um pedaço de terra bem localizado; ele envolve também, de forma indispensável, ter em mãos uma pasta com papéis devidamente carimbados, assinados e protocolados.
