Yuri Moreira
A lição de Presidente Tancredo Neves: Quando a cultura da terra desafia o peso da história de GanduA lição de Presidente Tancredo Neves: Quando a cultura da terra desafia o peso da história de Gandu
Yuri Moreira, Gandu, Presidente Tancredo Neves, PTNGandu sempre levou a fama de ser a capital da nossa região. Afinal, a geografia da cidade ajuda muito: fica bem no coração do mapa e parece o ponto de encontro natural onde as estradas e os negócios de todos os lados se cruzam. Mas se a gente olhar para o tabuleiro regional sem paixão e encarar a realidade de perto, precisa admitir um fato: há mais de vinte anos, a nossa vizinha Presidente Tancredo Neves vem tomando as rédeas da economia por esses lados.
Pra gente entender como PTN conseguiu essa virada, precisamos dar um pulo no passado. Cidades como Gandu, Wenceslau Guimarães, Nova Ibiá e Itamari nasceram sob a sombra de imensas propriedades. Lá no início do século passado, homens influentes como o Coronel Barachísio Lisboa, Manoel Libânio e José Amado Costa, que já eram grandes produtores em Ituberá, fincaram pés nessas bandas e abraçaram léguas e léguas de chão. Criou-se então aquela cultura de muita terra concentrada nas mãos de pouca gente, onde poucas famílias comandavam as grandes roças e a maioria trabalhava duro no cabo da enxada para receber um valor mensal pelo seu esforço.
Eu lembro claramente do meu tempo de escola aqui na região. Sentado na carteira, eu ouvia vários colegas que vinham da zona rural repetirem o mesmo desejo: o grande sonho da vida deles era sair da roça. E a gente entende o motivo. Eles viam os pais pegando no pesado de sol a sol na terra alheia, sem ver o dinheiro render de verdade no fim do mês. Ir morar na sede da cidade era visto como a única porta aberta para mudar de vida e prosperar.
Só que em Presidente Tancredo Neves a semente germinou em outro solo. Lá a lógica sempre foi a da terra repartida entre muitos. As famílias cultivam o cacau, a banana, o cravo e a mandioca no seu próprio pedaço de chão. E com o respaldo forte de instituições como a Coopatan e a Casa Familiar Rural, o trabalho no campo deixou de ser visto como fardo e virou um negócio próspero. A juventude de lá não enxerga a propriedade da família como um lugar de limitação, mas como um terreno fértil para construir o próprio futuro.
Essa mentalidade é alimentada dentro de casa. O jovem toma gosto pelo cultivo porque vê o resultado do seu próprio suor retornar para o seu bolso. A família incentiva de forma prática: o pai ajuda a adquirir uma moto, por exemplo, mas o próprio filho assume as parcelas com o dinheiro gerado pela sua produção na roça. Isso cria autonomia, gera orgulho e ensina o valor do trabalho. Em vez de querer deixar o campo para trás, o jovem quer fazer a propriedade render ainda mais.
O impacto disso na economia de PTN é visível no dia a dia. O dinheiro não fica represado na conta de poucos; ele roda forte no comércio local, lembrando o movimento das nossas feiras livres. Como a produção da agricultura familiar é constante, o produtor recebe seu dinheiro toda semana ou todo mês, compra no mercado da cidade e movimenta a economia de ponta a ponta. Em Gandu, o único lugar que se aproxima dessa dinâmica de PTN é a região do Monte Alegre, onde a terra também é fracionada entre várias famílias que fazem o comércio local girar com a própria produção.
Gandu ainda guarda o peso do seu nome e a força de ser um polo fundamental de serviços para os municípios vizinhos. Mas Presidente Tancredo Neves provou para toda a região que o motor de uma cidade não é apenas a sua posição no mapa, mas a forma como a riqueza brota da terra e se distribui na mão do povo. Enquanto a estrutura tradicional de grande parte da nossa região acabou empurrando os jovens para fora do campo, PTN ensinou os seus a fincarem raízes e colherem os frutos da sua própria terra. E é essa força que continua ditando o novo ritmo do nosso Baixo Sul.
