Especialistas divergem sobre anuência de Marrocos em migração a Ceuta


O professor de História da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nuno Carlos de Fragoso Vidal, avalia que não seria possível uma imigração em massa, como a vista em direção à Ceuta, sem uma anuência do governo marroquino.
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“O rei de Marrocos [Mohammed VI] chateia-se com esse apoio e resolve retaliar. Certamente aquela imigração em massa teve a anuência das autoridades marroquinas, muito certamente por conta da Frente Polisário, que é profundamente apoiada pelas forças de extrema esquerda da Europa”, disse.
Controle
O especialista em Europa e ex-senador pela Itália em 2006, o ítalo-brasileiro José Luís Del Roio, avalia que o governo marroquino controla muito bem todo o território, sendo uma espécie de Estado policial, podendo bloquear a movimentação de grandes contingentes de pessoas.
“Não é possível que deixem 80 mil jovens saírem correndo e não fazem nada. Se não fazem nada, é porque não quiseram fazer nada. O sistema marroquino é muito rigoroso no controle territorial. Então existe conivência, sim, do governo marroquino”, afirmou.
Para o analista de geopolítica Del Roio, a imigração em massa foi “evento programado por forças poderosas”, sendo Israel “o grande suspeito”. “Primeiro, porque tem a capacidade de fazer isso e, segundo, porque Israel está furioso com a posição do governo espanhol em relação a Gaza e Cisjordânia”, disse.
Marrocos é um dos países que assinou o Acordo de Abraão, pacto entre Tel Aviv e países árabes usado para normalizar as relações com Israel, independentemente da questão palestina.
Juventude sem expectativa
Por outro lado, o professor marroquino de relações internacionais Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC paulista (UFABC), ressaltou à Agência Brasil que não há indícios do envolvimento de Marrocos na avalanche humana.
Nadir lembra que o governo Sanchéz reconheceu o projeto de Marrocos para o Saara Ocidental em 2022, o que teria aplacado as hostilidades do país africano contra o governo Sánchez.
Para ele, que estava em visita a Marrocos quando a crise estourou, o acontecimento tem relação com a falta de expectativa de futuro da juventude marroquina e expressa o fracasso do projeto de desenvolvimento do país em alcançar essa parcela da população.
“O que tenho visto aqui na rua é o mal-estar em relação ao aumento do custo de vida, falta de oportunidades e o difícil acesso à saúde pública. Tudo isso faz com que a população marroquina sonhe em emigrar para a Europa em busca de melhoria de vida”, disse.
Inteligência espanhola
Os serviços de inteligência espanhóis concluíram, segundo apuração do jornal espanhol El País, que Marrocos não teria planejado a imigração em massa. Porém, o governo de Rabat teria permitido a movimentação dos jovens em seu território, usando a situação politicamente a seu favor.
A inteligência do país europeu concluiu que a omissão do governo de Rabat – capital de Marrocos –, foi um ato de “oportunismo” frente a uma crise que já estava em marcha.
Em 2021, Ceuta foi o destino de outra onda imigratória de Marrocos, quando mais de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira. Ao contrário da situação atual, naquela época a Espanha acusou Rabat de promover a imigração ao enfraquecer os controles fronteiriços.
Os acontecimentos em Ceuta têm sido usados para reforçar a defesa de uma política anti-imigração mais rígida na Europa. O governo de Donald Trump chegou a responsabilizar as políticas da Espanha por “facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”.
Ceuta e Melilla
O professor da UFRJ Nuno Carlos de Fragoso Vidal, por outro lado, rejeitou a hipótese de que o Rei Mohammed VI estaria sendo uma “marionete” do governo Trump ou de Israel.
Analistas têm levantado essa hipótese devido ao fato de a Espanha ter sido o único país da Europa a se opor abertamente a guerra contra o Irã, tendo fechado o espaço aéreo do país para aeronaves militares dos EUA.
Para o especialista da UFRJ, a anuência marroquina com a imigração tem relação com questões referentes ao próprio Estado de Marrocos. Ele acrescentou que Ceuta, assim como Melilla, é um enclave espanhol em território marroquino, e as duas cidades são reclamadas pelo país africano há décadas, sendo estratégicas no controle do Estreito de Gibraltar.
“Em uma altura em que o controle dos estreitos está a ganhar importância geopolítica e geoestratégica, Marrocos pode também estar a criar problemas por conta dessa reclamação”, ponderou Vidal.
Ainda para o professor de História da África, o fato de a Espanha ter reconhecido o projeto de Marrocos para o Saara Ocidental não pacificou a relação entre Rabat e Madri.
“Deveria ter pacificado as relações, mas Sanchéz tem se aproximado das alas mais radicais da esquerda espanhola que o sustentam no poder, e esses puxam por uma agenda pró-Sarauí [do povo do Saara Ocidental]”, comentou Nuno Vidal.
A visita do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez à Argélia no mês passado, e o avanço no congresso da Espanha de projeto que prevê nacionalidade espanhola para saarauis que nasceram durante a ocupação espanhola, até 1976, têm sido apontados como motivos para atritos com o país africano.
Espanha elogia Marrocos
O governo da Espanha tem elogiado a postura do governo marroquino durante a crise de imigração, dizendo que Rabat, diferentemente de 2021, estaria colaborando com Madri para deportação dos imigrantes irregulares.
“Desde o início, Marrocos ofereceu sua cooperação para tentar impedir esse fluxo de pessoas e, sobretudo, garantir seu retorno. A grande maioria dos que entraram já retornou a Marrocos, e o país continua oferecendo essa cooperação”, disse o ministro das relações exteriores José Manuel Albares, em entrevista à RTVE.
Ao mesmo tempo, Albares acusa grupos “reacionários” internacionais de mobilizarem as redes sociais contra a Espanha.
Para o analista José Luís Del Roio, o governo espanhol não acusa diretamente Marrocos para evitar o aumento das tensões com o país africano, uma vez que precisa da colaboração dos marroquinos.
“Eles sabem perfeitamente qual é o quadro. Mas essa é uma decisão de não aumentar a tensão, porque já tem muita tensão, com EUA, com os europeus. É uma situação difícil”, comentou.
Por outro lado, o presidente da cidade autônoma de Ceuta, Juan Jesus Vivas, afirmou ontem que “Marrocos já demonstrou que não é confiável”.
Em declaração ao jornal El País, Vivas acrescentou que Marrocos não “quer” ter boas relações e pediu que Espanha e a Europa exijam respeito do Marrocos em relação às fronteiras.
Marrocos se manifesta
Neste domingo (2), o governo do Marrocos se pronunciou oficialmente pela primeira vez desde o início da crise de imigração em Ceuta e Melilla. O porta-voz do ministério do interior do país africano disse que a crise foi resultado da disseminação de notícias falsas.
“Estes acontecimentos não se devem a fatores circunstanciais ou espontâneos, mas sim ao resultado da interação de vários fatores interligados”, disse Rachid El Khalfi, em declaração à imprensa.
Segundo ele, houve “a instrumentalização tendenciosa” das redes sociais com disseminação de notícias falsas “que visavam criar a ilusão de fácil acesso ao espaço europeu sem consequências legais”.


